"Há males que vem pra bem" é um ditado que se aplica a vários momentos da nossa vida, desde aqueles onde ganhamos algo que nos faz mudar, até os que nos fazem perder algo e que provocam a mesma onda de mudança. É o que temos em Dead End Kings.

Poético? Quase isso. Longe do Katatonia dos guturais e capas de cd extremamente feias, Dead End Kings mostra a face mais refinada do grupo: fotos promocionais dark do tipo arrumadinhas, uma capa de álbum cuja arte é sombria, porém bonita, e a famosa sonoridade depressiva, que agora está melhor trabalhada.

Digamos que bendito foi o dia em que Jonas Kenkse perdeu a voz, ficando impossibilitado de continuar grunhindo, e sendo obrigado a partir para outra abordagem: cantar (!!). Graças a esse acidente de percurso o metal ganhou uma de suas vozes mais harmônicas, que se encaixa até melhor com o ideal depressivo, sempre voltado pra dentro, tornando-se bem melhor que o Renkse monstro do biscoito.

Dead End Kings não é a reinvenção da roda, mas é um clichê agradável de ouvir. É o Katatonia que ao invés de inventar, reinventou a si mesmo. As músicas estão mais dinâmicas, abusando da inspiração progressiva e do uso inteligente de samplers e sintetizadores, com passagens que podem fazer lembrar Night Is The New Day e gerar comparações inevitáveis, algo que mesmo assim não rebaixa o play atual.

  • Destaques
The Parting é confortante. Mesmo depois dos primeiros versos pesados, a música desafoga num ritmo lento, marcado pela voz de Renkse e a companhia do teclado, uma sacada perfeita e ao mesmo tempo de cortar o coração, pois momentos de quietude assim são raros com o ritmo de vida que levamos. Pra constrastar, o refrão retoma o peso do começo.

Já a levada de Ambitions (uma das minhas favoritas) é mais puxada pro rock, deixando você flutuando em reflexões até abrir o refrão não tão pesado, muito parecido com o de outro sucesso da banda que eu gosto muito: My Twin. A voz de Renkse em hear my thin voice, see my ambitions fade out fica grudada na sua cabeça mesmo depois que a música acaba.

The One You Are Looking For Is Not Here foi um experimento de resultado foi muito positivo. Constantemente rotulados de "góticos", o Katatonia resolveu justificar o rótulo e convidar uma mulher para os vocais dessa música, e foi assim que Silje Wergeland (THE GATHERING) entrou na história. O dueto entre Silje e Renkse (praticamente dois trava línguas pra escrever) dá um ar leve, parecido com a nova fase do Anathema.

  • Conclusão
Digo e repito: Dead End Kings não é genial, mas pode ser curtido com gosto e sem medo. Desde a mais rockzinha Lethean, até praticamente acústica Undo You, você reflete, recorda memórias e entende melhor porque o lado depressivo das coisas pode ser tão criativo. Essa teoria se choca pra valer com a nossa necessidade de sermos felizes, porém se usada adequadamente, pode criar coisas legais pra gente ouvir.

Afinal, quem não conhece um hit que foi gravado em momento de crise?


Formação
Jonas Renkse – vocais, guitarra, teclado, produção, mixagem
Anders Nyström – guitarra principal, teclado, backing vocais
Daniel Liljekvist – bateria
Per Eriksson – guitarra
Niklas Sandin – baixo

Tracklist
1. The Parting
2. The One You Are Looking for is Not Here (feat. Silje Wergeland)
3. Hypnone
4. The Racing Heart
5. Buildings
6. Leech
7. Ambitions
8. Undo You
9. Lethean
10. First Prayer
11. Dead Letters