A nacionalidade de uma banda pode dizr algumas coisas sobre ela, mas não diz muito e nem diz tudo. O metalhed brasileiro precisa matar essa versão do Complexo de Vira-Lata que de imediato incetiva a criticar, ignorando a ter maturidade e o saber separar as bandas ruins e boas que nós temos no Brasil, tal como qualquer país. E assim poder curtir álbuns feito o Mantra, do Kamala.
Porque é um álbum objetivo e sincero. Esses dois adjetivos definem 100% a ideia das 10 faixas, que juntas duram pouco mais de 30 minutos, e isso é um ponto positivo por causa do som que o Kamala se propõe a fazer: um thrash metal moderno, com bastante harmonia, peso, e produção na medida, sem exagerar em firulas, ou na vibe amadora estilo som de garagem, afinal, esse é o quarto álbum do trio de Campinas (São Paulo). É de se imaginar que os caras já saibam alguns truques.
E sim, eles sabem. Além de peso e harmonia, as músicas tem uma boa carga de groove, o baixo se destaca em vários momentos, e mais uma vez eu deixo registrado como isso deixa feliz a baixista frustrada que eu sou (fé em Deus, fé na vida que um dia eu aprendo a tocar baixo). As guitarras são marcantes, mas quem se destaca mesmo é a bateria de Estevan Furlan, sempre rápida e técnica. Ela não descansa 1 minuto sequer, e por isso não vai deixar o ouvinte descansar.
De vez em quando o som até esbarra no death metal, porque fica bem agressivo mesmo. Já os vocais do Kamala vão do urrado ao gritado, me fizeram lembrar de como o Randy Blythe canta no Lamb of God, até, porque ele também não usa voz limpa, mas ao mesmo tempo eu acho ela melodiosa. No caso do Mantra, entretanto, existe a vantagem da banda usar três vozes ao invés de uma, o que deixa as músicas mais encorpadas, por assim dizer.
Ser brutal sem ser entediante
O que eu mais gostei no Mantra é que ele consegue ser brutal sem deixar você entediado. Eu tenho muito pouca (ou quase nenhuma) paciência para aguentar bandas e fãs que reforçam o estereótipo chato de hurr durr heavy metal é música de revoltado. As músicas do Kamala oferecem sim, bastante peso, mas o peso é acompanhado por doses homeopáticas de instrumentos tradicionais, samples e arranjos orientais que mostram a criatividade da banda em fazer um link com a Índia.
Afinal, façam as contas:
- O álbum se chama Mantra;
- A banda se chama Kamala, nome de uma das meninas-lobo que protagonizaram uma das histórias mais conhecidas da Índia,
- A faixa 8 se chama Airavata, nome do deus elefante e montaria do deus Indra;
- E a faixa 9 se chama Erawan, nome de um parque tailandês (o Erawan National Park) e de um popular santuário hindu também na Tailândia, onde fica a estátua de Phra Phrom, a representação hindu da criação do deus Brahma.
Sendo assim, os links através do som não só fazem todo o sentido como são justos! Esses detalhes podem parecer simples para algumas pessoas, mas eles contam pontos positivos eu valorizo eles em termos de coerência. Sem falar que eles indicam o cuidado que a banda teve em criar um conceito, e de oferecer mais alguma coisa para o ouvinte "mastigar" além do peso das músicas.
Destaques
(onde todas, por ironia, se destacaram pelas introduções)
"My Religion": o ataque da bateria no começo é muito bom, pontuado por momentos de splash dos pratos lá e cá. Os vocais são incrivelmente sólidos, e a presença da percussão ajuda bastante em criar a atmosfera;
"Erawan": já o começo aqui é feito por melodias indianas que causam um contraste positivo, e quebram aquela tendência de só usar o folk violino/violão. A música é curta, mas os gritos de "together!" ao fundo animam e preparam para o encerramento do disco;
"Suicidal Attack": o encerramento do álbum é irônico. Na primeira vez que eu ouvi, pensei que seria uma música lenta por causa do trecho acústico... Que na verdade abre caminho pra pancadaria! Boa surpresa.
"Suicidal Attack": o encerramento do álbum é irônico. Na primeira vez que eu ouvi, pensei que seria uma música lenta por causa do trecho acústico... Que na verdade abre caminho pra pancadaria! Boa surpresa.
Conclusão
Se você conheceu o Kamala agora, vai ter uma boa primeira impressão depois de ouvir o Mantra. Se você for igual a mim e já conhecer a banda há alguns anos, vai achar bacana de ver como o som do trio vem mudando. E isso é muito bom. Não vou dizer que o álbum é revolucionário, porque ele não é. Mas isso não chega a ser um problema, porque é como eu digo: inventar a roda nem sempre é necessário, mas inventar uma forma diferente de usar ela é sempre bem-vindo.
O fato da banda ser brasileira é bastante escorregadio, porque fica fácil cair naquele Complexo de Vira-Lata que eu falei no começo da resenha. Também é fácil escorregar no pachequismo e rasgar vários elogios sem sentido. Ambos são extremos, e ser extremista é chato. Eu reconheço que sim, existem problemas crônicos na cena brasileira de heavy metal, que ela já me desanimou e não foi pouco.
Mas crédito onde é merecido, porque é bem legal mesmo quando você descobre ou redescobre uma banda feito o Kamala. Ainda mais porque a banda investe no tipo de heavy metal que eu ando mais ligada de uns anos para cá.
Nota de rodapé: aproveite pra conferir o canal da banda no Youtube. Eles subiram os CDs anteriores lá, tudo 100% completo, 0800 e com 0% de desculpa pra você não ouvir.
Formação
Raphael Olmos - vocais/guitarra
Estevan Furlan - bateria/vocais
Allan Malavasi - baixo/vocais
Tracklist
1. Warning
2. Mantra
3. Alive
4. What We Deserve
5. Better Energy, Less Anger
6. My Religion
7. Becoming a Stone
8. Airavata
9. Eravan
10. Suicidal Attack
Links relacionados
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