Créditos da imagem: Edu Guimarães

Na segunda e terça passei uma parte da noite conversando com amigos a respeito dos incidentes ocorridos na passagem do ReVamp pelo Brasil, inclusive com algumas pessoas que estiveram nesses shows. Como se trata de um assunto delicado demais para falar em apenas um post, decidi fazer um texto a parte para complementar a carta escrita pela vocalista que foi postada aqui, com tradução gentilmente cedida pelo Head Up High.


Já faz alguns anos que eu tenho notado o surgimento de uma tendência preocupante: os fãs-consumidores. Não sei se por culpa da tecnologia, da sociedade ou das estrelas, mas o comportamento do público que vai aos shows tem mudado muito, e não necessariamente mudado para a melhor. Lembrando que onde digo público me refiro ao brasileiro, pois o lance é falar da realidade que vivemos, não da realidade dos outros.


Tudo é válido, incluindo ter limites

Eu entendo totalmente o desejo que um fã tem em ser notado e reconhecido pela devoção a esse ou aquele artista. Entretanto, muitos perdem a noção de como demonstrar esse afeto, às vezes são radicais e exagerados, e a partir do momento em que suas (altas) expectativas não são correspondidas, começa um processo curioso de rejeição ao ídolo.


Primeiro vem as críticas mal educadas, logo depois as ofensas mais abertas. Dai surge o infame discurso da polícia da justiça social ao defender os artistas que fazem música por amor dos que fazem música por dinheiro, os mercenários cruéis que são imediatamente perdoados quando lançam um CD ou DVD novo, pois todos deixam as mágoas e as hipocrisias no passado.


Nós esquecemos de um detalhe muito, muito simples: músicos são pessoas. É verdade, o fato de serem pessoas, porém públicas dá menos espaço para erros, e menos desculpa para grosserias, comportamentos até bem mortais. Querem tirar a prova? Vou entrar na reta dando um exemplo pessoal: 


Pimenta nos seus olhos não é refresco

Fora das 4 linhas da internet eu sou uma pessoa extremamente reservada.


Prefiro programas mais tranquilos (um dos meus prediletos é passear na praia a noite), sempre sou educada quando interagem comigo, mas só consigo me sentir a vontade com pessoas nas quais eu tenho um mínimo de intimidade. Muita aglomeração me causa mal estar físico, mas ao invés de entenderem essa questão, já fui chamada de anti-social e bicho do mato, afinal, não saio muito e nem gosto de baladas.


Você se sente obrigado a corresponder uma expectivativa baseada no desejo alheio e não no seu, e o efeito disso na auto-estima não é legal. Muito menos engraçado. Mesmo ouvindo menos, esse tipo de comentário ainda me chateia. Esse é um exemplo de uma relés blogueira, mas acredito que vocês tenham ou conheçam dilemas parecidos. Por isso eu consigo entender a situação da Floor. 


O problema não é a tecnologia

Que o flash é uma das invenções mais ingratas existentes é difícil discordar. Sou contra ou seu uso, primeiro porque tenho sensibilidade a luz (não sou vampiro! só tenho astigmatismo), e segundo porque as pessoas não sabem usar o flash. Uma razão que completa a outra. Quanto ao câncer da era filmar-e-fotografar, concordo com a vocalista. 


Se não é um veículo autorizado, apoio a proibição de gravar setlists inteiros.


Ingressos nem sempre são tão acessíveis, então você precisa extrair o máximo da experiência. Sem contar que surpresa, quando você estende os braços pra gravar 3, 5 músicas seguidas de um show, você corre um risco enorme de atrapalhar a experiência de outras pessoas, afinal o show é coletivo, não individual. Não é só você que está ali.


Pense comigo. Qual seria a sensação se na hora do seu solo favorito, que o seu guitarrista favorito toca bem na sua direção, uma câmera entrasse no caminho entre vocês? Novamente, o problema não é a tecnologia, não sou contra ela. O problema somos nós, que não fomos educados para saber quando, onde, e como usá-la.


O "complexo de vira-lata"

Fãs brasileiros têm uma "fama famosa" entre as bandas. São receptivos, agitam nos shows, correspondem e tornam a experiência dos músicos marcante, porém são intolerantes, mal educados, querem respeito, mas não se prestam a respeitar.


Quando você paga pelo ingresso de um show, você paga por um evento, e não por um produto. Cada qual deve ser tratado da maneira certa. Um produto é programado, sistematizado, mas um show não. Um show é a extensão do relacionamento entre banda e público, e todo relacionamento é uma via de mão dupla. Se um erra, o outro ajuda a superar. Se os dois erram, ambos fazem o melhor pra restaurar a confiança. 


Floor pode ter errado ou perdido a mão em muitos aspectos (tal como os comentários), mas, xingamentos, piadas de mal gosto, comparações tolas com outras vocalistas, não vão fazer nada além de manchar um relacionamento que mal começou, pois essa é a primeira passagem da banda pelo país.


Depois vemos banda A ou artista B evitarem determinado país ou cidade, e a indignação é geral. (!)


Tem alguém me ouvindo?

Eu sei que os ingressos no Brasil são caros. Sei também que as casas onde as bandas se apresentam nem sempre dispõem das melhores condições. É um cenário que ainda precisa mudar, são várias mentalidades que ainda precisam mudar. Mas sabem o que me frustra? Não vejo ninguém interessado nessa mudança, mesmo conhecendo pessoas com um milagroso bom senso, mas que infelizmente são a minoria.

Gostamos de defender o próprio interesse e o próprio umbigo, mas quando erramos, mas não temos maturidade de assumir. A tal maturidade que cobramos dos outros. 


Entendam: músicos são pessoas, não máquinas.