Hoje enquanto lia o Facebook no intervalo da faculdade, soube que o baterista Dave Lombardo fora cortado do lineup do Slayer para turnê australiana. E apesar de não ser uma banda pela qual eu me interesse, passei o resto da manhã pensando num assunto antigo: como lidar com o fato de quando a nossa banda favorita muda.

Antes de seguir, uma breve explicação do caso: Dave teria questionado o guitarrista Kerry King sobre o atual modelo de gestão da banda, que repassa aproximadamente 10% dos lucros aos músicos. Os ânimos já acirrados há um tempo atingiram o seu limite, e o baterista terminou "pendurado" através de um aviso por e-mail. Mais detalhes sobre o ocorrido vocês podem ler aqui no Collector's Room.

Isso não é novidade, pois desde que a música existe vemos músicos e cantores protagonizarem brigas, algumas dignas das piores novelas pastelão. É desafiante confinar dentro de um mesmo estúdio, hotel, palco, avião, backstage ou o que quer que seja, personalidades, desejos, ambições e egos diferentes em prol do mesmo objetivo, que no nosso caso é a música. Surgem os grupos famosos por suas formações instáveis, e aqueles que, contrariando a lógica, mantém as formações estáveis durantes vários anos.


Não entendo de Slayer a ponto de fazer nenhum tipo de julgamento, mas sei que Kerry King é um dos fundadores da banda. E uma vez que Jeff Hanneman reduziu sua participação por questões de saúde, King pode ser considerado na prática o atual líder da banda.

É aqui que a gente vê como essa palavra -lider- é complicada. A definição do dicionário diz que um líder é a pessoa de maior evidência em um partido político, numa coletividade ou comunidade; comandante; dirigente.

Tobias Sammet e Avantasia, John Petrucci e Dream Theater: mesmo que a banda seja composta por "celebridades", sempre haverá um líder. O problema é que liderar uma banda de heavy metal ou hard rock é mais do que viver a visão romântica do rockstar alimentada por anos, a visão do Alx Rose que há tempos não mais existe. Agora é preciso ser gestor, contornando crises financeiras, criativas e até mesmo de moralidade.

Um caso recente e já batido é o Nightwish. Tuomas é sem dúvidas o grande líder da banda, mas nunca teve esse perfil de gestão, ao invés disso, foi justamente o foco das maiores polêmicas da história do grupo. Sua postura egoísta e irresponsável acaba me fazendo admirar atitudes como a do multi-instrumentista Morten Veland que ao invés de convidar mais músicos, acumula inúmeras funções no Sirenia desde o lançamento do primeiro disco.

Há quem diga que tem bandas que podem sobreviver sem a presença desse ou daquele integrante, mas eu discordo. Ao menos em parte. Usando o caso Slater como exemplo, pense comigo: é legal saber que a banda virá pro Rock In Rio com Kerry King, Tom Araya, Gary Holt e Dave Lombardo, mas imagine o impacto se ao invés disso viessem Kerry King, Tom Araya, Dave Lombardo e  Jeff Hanneman?

Na prática Gary pode ser um bom substituto, porém a experiência de um show com Jeff no palco seria muito mais completa pelo peso que seu nome carrega na história do Slayer, tal como o caso de Dave.

Virando a moeda temos bandas que ao longo de sua história mantiveram a estabilidade: Trivium, Blind Guardian, Lacuna Coil, Paradise Lost, e Within Temptation são exemplos de bandas que ao longo dos anos souberam superar as perdas para obter grandes ganhos. O Within Temptation por sinal é corajoso, um grupo que foi capaz de superar a quase separação durante a turnê de promoção do álbum The Heart of Everything e tornar-se uma das bandas de maior sucesso.

E no meio da moeda temos o caso mais raro de todos: o Kamelot.

Depois de serem atingidos com a saída repentina e misteriosa do vocalista Roy Khan, o Kamelot tinha tudo pra ser mais uma galinha sem cabeça correndo por aí. Entretanto, o grupo liderado pelo guitarrista Thomas Youngblood cumpriu seus compromissos com ajuda dos vocalistas Michael Eriksen (Circus Maximus) e Fabio Lione (Rhapsody of Fire), oficializando em Abril de 2012 a procura por outro vocalista.

Apreensão e receio encheram os dias que antecederam Junho de 2012, quando Tommy Karevik foi apresentado para nós. Iniciou-se uma pequena onda de hostilidade contra ele, porém diferente de outros casos, a nação Kamelot o recepcionou com mais respeito do que eu poderia esperar. Após o lançamento de Silverthorn, Tommy mostrou não só o seu talento, mas a capacidade de Thomas de tirar o Kamelot de uma crise séria e colocar a banda novamente entre melhores do heavy metal mundial.

Não existe fórmula definida pra sobrevivência, mas é certo que maturidade, saber ouvir, falar, ceder, e escolher as pessoas certas para com as quais trabalhar (de roadies à empresários) são essenciais pra definir quantos anos uma banda pode se manter na estrada. À nós, cabe paciência, muita paciência.