Há duas semanas eu estava conversando com minha fiel escudeira Celtic Botan no Facebook. Viramos a madrugada discutindo os mesmos assuntos que sempre tomam rumos diferentes: nossos medos, visões de mundo, sonhos e claro, sobre música. Numa das brechas que tive fiz revelei em tom de brincadeira algo que não a surpreendeu, mas que talvez surpreenda a vocês:

Não me considero metalhead.
Nem headbanger, roqueirametaleira.
Nada do tipo.

Claro, seria hipócrita reduzir a nada o que o heavy metal fez por mim, tornando-se meu gênero musical favorito por ser a válvula de escape para tantas emoções que até hoje não consigo extravasar, emoções de todas as cores e tamanhos. Sem contar que, contrariando as estatísticas, o metal tem a maior concentração de pessoas inteligentes, divertidas, sensíveis e fofas que eu já vi na música.

Entretanto, caro amigo tr00, tem espinhos no metal que me impedem de abraçá-lo por completo, espinhos que por várias vezes me fizeram pensar se valeria a pena continuar no Hardmetal Brasil. Como já disse em outras chances, não me sinto menos apreciadora por não idolatrar o Iron Maiden, porém não quero me sentir mais apreciadora por conta das brigas e fandons mais estúpidos que já vi. Ouviram, bandas de metal sinfônico?

A arrogância, o ar de superioridade, a segregação entre o heavy clássico e o nu metal, a incapacidade de apoiar as bandas de seu país e ao invés disso promover a rivalidade...

Teríamos inventado um nazismo musical?

Ao longo dos meus 23 anos adotei e aprimoro a filosofia do "não gostou? faça a curva e siga em frente, live and let die", filosofia que trouxe para cá: investir meu escasso tempo para promover o que eu gosto, pois de críticos a mídia e a invernet (do verbo inferno) estão cheios.

Fico de longe observando os paladinos modernos, que lutam contra a manipulação de mentes, o direito de escolha, a libertinagem (porque de liberdade não tem nada), que buscam a mudança do sistema quando, NA VERDADE, ultrapassam o limite da discussão saudável e inteligente, tornando-se pouco diferentes e até piores que o foco de seu ódio.

E isso é estranho pra mim, intrometida que sempre usou o metal como forma de formular as emoções, não para soltar o meu lado mais grosseiro e animal. Essa é uma razão pelo qual sinto a vontade diária de chutar o balde, juntar as tralhas e ir embora como se nada tivesse acontecido.

Creio que muitos de vocês devem estar pensando agora: garota chata, se quer ir, vá!  Eu até poderia, só que tem um problemão: deixar a cena seria reduzir a nada todas as lições que aprendi desde 2004, e que não foram poucas.

De um fato eu tenho certeza: o heavy metal é intenso, faz você sentir que é invencível. Claro, já me emocionei e saí decrises ao som de artistas não-metal, só que não é a mesma coisa. É como comparar uma chave de braço com um soco bem dado no centro do seu estômago. Por isso sustento que esse tal de rock 'n roll (digo, metal) não é pra qualquer um.

Precisa ter maturidade pra se expor às mensagens que vão do genial a grosseria facilmente. O risco que se corre é de virar um depressivo/vândalo/rebelde sem calças. Por isso evito mergulhar no som de bandas como Dark Tranquillity ou Katatonia, das quais até tenho músicas que gosto (The Mundane and The Magic e Burn The Remembrance, por exemplo), mas que eu sei que não sou madura suficiente pra ouvir.

Seria o tiro de misericórdia na tentativa de manter meus pés no chão, por isso admiro quem é capaz de estar nesse mundo e não perder a doçura:

Doro Pesch me emocionou nessa entrevista ao demonstrar tanta simplicidade, humanidade, mesmo sendo pessoa que teve a coragem de abrir mão do direito de ter uma familia normal para se tornar uma lenda da música;

Já Anneke van Giersbergen é um exemplo igualmente peculiar: cada vez mais distante da cena dos barra pesada, ainda tem muitos fãs dentro dela. É mãe, bem humorada, doce, talentosa, e também escuta Slayer

Amigos, romanos, conterrâneos, temos que rever nossos conceitos rápido, muito rápido mesmo.

Resumindo o que não se resume, tem gente de fora que deveria e ver a riqueza que certas bandas podem oferecer. Por outro lado tem gente aqui dentro que deveria cair fora, dar no é, e fazer companhia aos que são de fora, mas jogam as mesmas pedras.

É por isso que hoje eu estou de luto. Luto por um monte de coisas que eu gostaria de mudar, mas não posso. Luto por um monte de mal entendidos causados pelos mamãe-sou-true que eu não posso resolver. Luto por esse gênero musical fantástico que diariamente torna-se uma selvageria que eu não tenho coragem de olhar.